quarta-feira, 10 de abril de 2013

Texto de Mariana Fagundes - 02 de abril de 2013


Contra todas as nossas expectativas, aquela tal de Melissa vinha à procura de meu pai. Era uma tarde calma, dessas que se arrastam em vão, tentando, aos tropeços, levar nas costas a banalidade das horas. Nenhum de nós três podia imaginar que a chegada daquela mulher, franzina e discreta, mudaria o percurso de todas as outras horas e tardes.
Ela vinha apressada, toda desengonçada, metida em um uniforme mal-passado. Quem sabe vestido às escuras. Bateu à porta duas vezes de leve e, na terceira, deixou que a mão pesasse um pouco mais, a fim de ser percebida o mais rápido possível. Tinha pouco tempo.
Abri a porta receoso – papai sempre dizia para não falarmos com estranhos. Mas, na falta de um adulto na casa, era eu quem assumia o comando de todas as situações. Desde minha irmã mais nova, Lúcia, esperneando por atenção e brincadeiras, até afazeres domésticos e cuidados com cão, gato e o porco de estimação, presente da vizinha.
Eu era um rapazote de quatorze anos. De estatura mediana, magro e repleto de acne no rosto, o que acentuava minha timidez nata e diminuia as chances de eu me projetar em qualquer ambiente, até eu casa. Eu não tinha voz e, de certa forma, preferia assim.
Até Melissa aparecer e me entregar, sem muitas explicações, um envelope pardo bem grande, com letras graúdas e garranchadas no verso. Era para meu pai, indicou ela e, em seguida, pediu que eu assinasse a folha que carregava embaixo do braço. “Quando é serviço de Sedex, quem recebe precisa assinar. É para a gente ter controle”, explicou.
Franzi a testa e rubriquei o papel. Enquanto ela se organizava para dar meia volta e eu, para fechar a porta, vi, de relance, seu nome no crachá: Melissa. Com um selo dourado – acho que de funcionária do mês, cogitei –, no canto esquerdo, sobre a foto.
Ela fez mesmo um bom trabalho levando a encomenda até nós. Mas, humanos que somos, não admitimos de primeira que mesmo as perdas devem ser plenamente vividas. Cedemos à facilidade de relutar contra a dor e dissimular qualquer indiferença.
Virei o envelope por inércia, sem a menor intenção de abri-lo. Não era de meu feitio. Foi aí que vi, numa caligrafia fraca, apagada a borracha, o remetente. Era minha avó, de quem não tínhamos notícias há anos e, para ser sincero, não sei bem se queríamos ter. Doía.
Ela enviava a correspondência de nossa cidade, Potiforu. Senti meu estômago embrulhar. Devia ser o choque da curiosidade, seguida do medo, que eu acabara de engolir, a seco.
Não resisti, abri o papel com cuidado. Era uma carta breve, com os seguintes dizeres:
“Querido Francisco, já é tempo de pagar sua dívida e retornar, com meus amados netos, a Potiforu.
À espera de uma visita e com doçura,
Sua mãe.”
Meu pai deixara sua cidade, minha e de nossa família assim que minha mãe faleceu. Havia sete anos. Pegou as malas, eu e minha irmã e deu um adeus seco, já virando as costas, para que não o vissem chorar. Prometeu, como consolo aos que ficavam, voltar o quanto antes. Vocês sabem, a gente vive por aí, prometendo o impossível.
 Acho que ele não queria deparar-se com as lembranças e, na tentativa frustrada de despistá-las, empacotou o pouco que tínhamos e fugiu de lá. Só que não adiantou. Recordações se escondem, engenhosas, em qualquer bagagem. Elas têm passagem livre para todo lugar deste mundo. E vão. Penduradas na saudade ou na angústia de quem as viveu.
Reli o bilhete. Eu sabia que ele não ia querer voltar e, tampouco, permitiria que fôssemos sozinhos, eu e Lúcia, a Potiforu. Não tão cedo. Por acreditar que também nós ainda não superamos a perda e assim seria melhor.
Mas, com isso, além de perdermos a mãe, perdíamos a oportunidade de ter uma família inteira. A dívida, da qual minha avó falava, pesava em nós assim como nela. Com os anos, papai deixou afrouxar os laços com nosso lugar, o lugar de nossa mãe, e, sem querer, nos submeteu ao mesmo. A conta que ele esqueceu de pagar dizia respeito também a mim e a Lúcia.
Decidi responder a carta, deixando a efervecência de meus hormônios adolescentes borbulhar. Eu iria encontrar minha avó, já na próxima semana. Levando Lúcia e sem contar nada a meu pai.
Escondi o envolope pardo e tentei explicar a situação de gente grande a minha irmã, que tinha apenas oito anos e nenhuma lembrança da avó. Ela compreendeu, aparentemente. Crianças simplificam com encanto as agonias da realidade, tornam os acontecimentos fluídos, leves feito pluma, que é a maneira que encontram de conseguir segurá-los.
E aí, na sexta seguinte, fizemos nossas malas e planejamos a fuga. Seria na segunda de manhã, depois de papai ir para o trabalho, para não sermos surpreendidos. Eu compraria as passagens antes, com minha mesada do mês e a ajuda das moedas acumuladas no cofrinho de Lúcia.
Dois ou três dias depois, confabulávamos sobre como seria o reencontro com a vovó, com os tios e primos e todas as memórias de nossa pequena cidade, que em mim eram um tanto quanto inventadas e na menina, somente imaginadas.
De repente, ouvi o choro de alguém no quarto ao lado. Era meu pai. Corri até o cômodo e o encontrei sentado no chão, as mãos segurando a cabeça. Sob a cama, um novo envelope, desta vez menor. Ele estendeu as pernas, deixando cair de seu colo uma folha. Me agachei e li. Era uma carta de seu irmão, tio Augusto, avisando que minha avó estava doente e aguardava, sem muita esperança, que ele chegasse conosco à cidade antes que a morte que, não tardaria, acabaria por buscá-la.
Atordoado, fui até a janela e me debrucei no parapeito. Em meio à paisagem, de longe, reconheci a silhueta de Melissa virando a esquina. Ela batera à porta, mais uma vez, carregando outra tentativa de nos levar de volta ao nosso ponto de partida. No fim, não importa muito o que aconteça, a gente sempre pode voltar para casa. Não há canto mais reconfortante do que nosso lugar.
Busquei Lúcia, as malas e os planos e convidei meu pai para, juntos, enfrentarmos medos e dores. Precisávamos reconstruir aqueles laços desfeitos no passado se quiséssemos seguir firmes no presente.

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