Este blog foi criado com o intuito de compilar textos produzidos pelos alunos da UnB da disciplina oficina literária, oferecida pela professora Elizabeth Hazin no primeiro semestre de 2013. Este espaço tambem será usado para divulgar informações e notícias relativas a livros e textos que possam acrescentar algo à nossa experiência literária.
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Texto de Mariana Fagundes - 02 de abril de 2013
Contra todas as nossas expectativas, aquela tal de Melissa vinha à procura de meu pai. Era uma tarde calma, dessas que se arrastam em vão, tentando, aos tropeços, levar nas costas a banalidade das horas. Nenhum de nós três podia imaginar que a chegada daquela mulher, franzina e discreta, mudaria o percurso de todas as outras horas e tardes.
Ela vinha apressada, toda desengonçada, metida em um uniforme mal-passado. Quem sabe vestido às escuras. Bateu à porta duas vezes de leve e, na terceira, deixou que a mão pesasse um pouco mais, a fim de ser percebida o mais rápido possível. Tinha pouco tempo.
Abri a porta receoso – papai sempre dizia para não falarmos com estranhos. Mas, na falta de um adulto na casa, era eu quem assumia o comando de todas as situações. Desde minha irmã mais nova, Lúcia, esperneando por atenção e brincadeiras, até afazeres domésticos e cuidados com cão, gato e o porco de estimação, presente da vizinha.
Eu era um rapazote de quatorze anos. De estatura mediana, magro e repleto de acne no rosto, o que acentuava minha timidez nata e diminuia as chances de eu me projetar em qualquer ambiente, até eu casa. Eu não tinha voz e, de certa forma, preferia assim.
Até Melissa aparecer e me entregar, sem muitas explicações, um envelope pardo bem grande, com letras graúdas e garranchadas no verso. Era para meu pai, indicou ela e, em seguida, pediu que eu assinasse a folha que carregava embaixo do braço. “Quando é serviço de Sedex, quem recebe precisa assinar. É para a gente ter controle”, explicou.
Franzi a testa e rubriquei o papel. Enquanto ela se organizava para dar meia volta e eu, para fechar a porta, vi, de relance, seu nome no crachá: Melissa. Com um selo dourado – acho que de funcionária do mês, cogitei –, no canto esquerdo, sobre a foto.
Ela fez mesmo um bom trabalho levando a encomenda até nós. Mas, humanos que somos, não admitimos de primeira que mesmo as perdas devem ser plenamente vividas. Cedemos à facilidade de relutar contra a dor e dissimular qualquer indiferença.
Virei o envelope por inércia, sem a menor intenção de abri-lo. Não era de meu feitio. Foi aí que vi, numa caligrafia fraca, apagada a borracha, o remetente. Era minha avó, de quem não tínhamos notícias há anos e, para ser sincero, não sei bem se queríamos ter. Doía.
Ela enviava a correspondência de nossa cidade, Potiforu. Senti meu estômago embrulhar. Devia ser o choque da curiosidade, seguida do medo, que eu acabara de engolir, a seco.
Não resisti, abri o papel com cuidado. Era uma carta breve, com os seguintes dizeres:
“Querido Francisco, já é tempo de pagar sua dívida e retornar, com meus amados netos, a Potiforu.
À espera de uma visita e com doçura,
Sua mãe.”
Meu pai deixara sua cidade, minha e de nossa família assim que minha mãe faleceu. Havia sete anos. Pegou as malas, eu e minha irmã e deu um adeus seco, já virando as costas, para que não o vissem chorar. Prometeu, como consolo aos que ficavam, voltar o quanto antes. Vocês sabem, a gente vive por aí, prometendo o impossível. Acho que ele não queria deparar-se com as lembranças e, na tentativa frustrada de despistá-las, empacotou o pouco que tínhamos e fugiu de lá. Só que não adiantou. Recordações se escondem, engenhosas, em qualquer bagagem. Elas têm passagem livre para todo lugar deste mundo. E vão. Penduradas na saudade ou na angústia de quem as viveu.
Reli o bilhete. Eu sabia que ele não ia querer voltar e, tampouco, permitiria que fôssemos sozinhos, eu e Lúcia, a Potiforu. Não tão cedo. Por acreditar que também nós ainda não superamos a perda e assim seria melhor.
Mas, com isso, além de perdermos a mãe, perdíamos a oportunidade de ter uma família inteira. A dívida, da qual minha avó falava, pesava em nós assim como nela. Com os anos, papai deixou afrouxar os laços com nosso lugar, o lugar de nossa mãe, e, sem querer, nos submeteu ao mesmo. A conta que ele esqueceu de pagar dizia respeito também a mim e a Lúcia.
Decidi responder a carta, deixando a efervecência de meus hormônios adolescentes borbulhar. Eu iria encontrar minha avó, já na próxima semana. Levando Lúcia e sem contar nada a meu pai.
Escondi o envolope pardo e tentei explicar a situação de gente grande a minha irmã, que tinha apenas oito anos e nenhuma lembrança da avó. Ela compreendeu, aparentemente. Crianças simplificam com encanto as agonias da realidade, tornam os acontecimentos fluídos, leves feito pluma, que é a maneira que encontram de conseguir segurá-los.
E aí, na sexta seguinte, fizemos nossas malas e planejamos a fuga. Seria na segunda de manhã, depois de papai ir para o trabalho, para não sermos surpreendidos. Eu compraria as passagens antes, com minha mesada do mês e a ajuda das moedas acumuladas no cofrinho de Lúcia.
Dois ou três dias depois, confabulávamos sobre como seria o reencontro com a vovó, com os tios e primos e todas as memórias de nossa pequena cidade, que em mim eram um tanto quanto inventadas e na menina, somente imaginadas.
De repente, ouvi o choro de alguém no quarto ao lado. Era meu pai. Corri até o cômodo e o encontrei sentado no chão, as mãos segurando a cabeça. Sob a cama, um novo envelope, desta vez menor. Ele estendeu as pernas, deixando cair de seu colo uma folha. Me agachei e li. Era uma carta de seu irmão, tio Augusto, avisando que minha avó estava doente e aguardava, sem muita esperança, que ele chegasse conosco à cidade antes que a morte que, não tardaria, acabaria por buscá-la.
Atordoado, fui até a janela e me debrucei no parapeito. Em meio à paisagem, de longe, reconheci a silhueta de Melissa virando a esquina. Ela batera à porta, mais uma vez, carregando outra tentativa de nos levar de volta ao nosso ponto de partida. No fim, não importa muito o que aconteça, a gente sempre pode voltar para casa. Não há canto mais reconfortante do que nosso lugar.
Busquei Lúcia, as malas e os planos e convidei meu pai para, juntos, enfrentarmos medos e dores. Precisávamos reconstruir aqueles laços desfeitos no passado se quiséssemos seguir firmes no presente.
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