terça-feira, 23 de abril de 2013

"A vida depois da bomba" - Depoimentos das vítimas das bombas

Colegas, vou colar aqui alguns depoimentos de sobreviventes das bombss. Os depoimentos foram retitados do site: http://madeinjapan.uol.com.br/2007/03/12/depoimentos-de-sobreviventes-da-bomba-atomica/

Manabu Ashihara, 76 anos, de Nagasaki - Kamikaze e sobrevivente



“Fui recrutado para a aeronáutica com 15 anos e desde então, fui treinado para ser um kamikaze. Não tinha medo de morrer. Por quê? Era jovem demais e desde pequeno me ensinaram que o Japão era o país divino, que morrer por ele era uma grande honra. Que garoto não gostaria de ser um herói?”, conta Manabu Ashihara. Como não tinha idade suficiente para pilotar um avião, ele aprendeu a lidar com a parte mecânica. Aos 16 anos, em um treinamento sobrevoando o mar, ocorreu um acidente e o avião caiu. Por sorte, conseguiu escapar com vida, mas o oficial que estava pilotando morreu.
“Depois do acidente, fui transferido para a Marinha. Mesmo assim a minha sentença de morte me acompanhou. Fui designado para ser um tripulante do “maruyontei”, uma espécie de barco motorizado pequeno, com 250kg de explosivos. O objetivo era o mesmo de um kamikaze. Minha missão era fazer com que o barquinho se chocasse com o navio inimigo”, conta.
Nenhum “maruyontei” jamais afundou um navio americano. Mas o governo japonês divulgava ao povo que estas missões eram um sucesso. Faz sentido, já que nenhuma mãe permitiria que o filho participasse de uma missão suicida sabendo que esta seria em vão. Mesmo assim ninguém era capaz de se rebelar, pois existia muita opressão. O governo insistia em alimentar a esperança de que ainda poderíamos virar a guerra. A ilusão só foi quebrada quando a bomba explodiu. A tarefa final de Ashihara seria ir à base militar de Okinawa e embarcar num “maruyontei” dia 21 de agosto de 1945. Nesse dia, ele morreria pela pátria.
Por ironia do destino, duas semanas antes da missão, ele recebeu folga e voltou para Nagasaki a fim de reencontrar a família e os amigos. “Foi justamente na minha estadia na cidade que a bomba caiu. Todos os soldados foram designados para ajudar os feridos. Foi uma visão terrível. Não dá para explicar em palavras. Vozes pedindo socorro no meio dos escombros, pais desesperados à procura de filhos desaparecidos e órfãos desamparados. Não havia muita coisa a fazer, a não ser retirar os corpos queimados. Infelizmente são lembranças que nenhum documento pode provar.”




Tieko Kihara, 77 anos, de Hiroshima

Tieko Kihara foi uma vítima de primeiro grau, segundo consta em seu documento recebido pelo governo japonês. Isso quer dizer que ela esteve há menos de 3,5 quilômetros do epicentro da explosão de Hiroshima. Na época, pouco antes da bomba cair sobre a cidade em que vivia, Tieko freqüentava o “jyogakkou”, escola só de meninas, equivalente ao colegial brasileiro. Tinha 17 anos e também trabalhava na fábrica de peças da Marinha japonesa na qual dividia a jornada de trabalho de oito horas diárias com outras duas meninas. Dividindo o tempo entre a escola e o trabalho, Tieko conseguiu passar na faculdade “Hiroshima Jyoshi Senmon Gakkou”.
A matrícula era no dia primeiro de agosto de 1945. Mal ingressou na vida acadêmica, teve de largar os estudos. No quinto dia de aula, na reunião matinal de alunos e professores no ginásio, ela viu um grande clarão. “Parecia um flash muito reluzente de câmera fotográfica, uma luz seguida por um barulho ensurdecedor. Depois veio um vento tão forte que foi destruindo as estruturas do ginásio. Acostumados com treinamentos em situações de bombardeio, todos correram para baixo de suas mesas. Mas o ginásio começou a desabar e os alunos correram para fora, desesperados. Uma amiga minha, que tinha chegado atrasada, estava sentada na parte de trás do ginásio. A vidraça estilhaçada pelo impacto da explosão perfurou o seu rosto. Todos gritavam. Ninguém sabia o que estava acontecendo.
“Parecia o fim do mundo”, relembra Tieko. Por sorte ela não sofreu ferimentos graves na queda do ginásio e levou a amiga para fazer curativos. À medida que se aproximava do hospital, ela observava mais e mais vítimas. “Muitos estavam desfigurados pelas queimaduras, com pedaços da pele do rosto e dos braços pendurados, pedindo ajuda, pedindo um gole de água”, afirma.
Quando chegou em casa, somente à noite, os pais estavam muito preocupados. Seu irmão Hiroshi ainda não tinha voltado. Ele tinha 12 anos e trabalhava quebrando casas, um serviço comum na guerra. Como os bombardeios eram freqüentes, o serviço prevenia incêndios muito grandes, pois as casas, naquela época, eram todas de madeira e grudadas umas nas outras.
“Meu irmão estava trabalhando muito perto do local onde a bomba explodiu. Suas costas e seu rosto estavam totalmente queimados. Levaram-no para o hospital, mas ele escapou de lá no dia seguinte, de manhã bem cedo. Isso porque à noite, Hiroshi ouviu os médicos conversarem sobre a possibilidade de transferir os enfermos para as ilhas próximas à costa. Isso significava que ele poderia não voltar mais. As condições médicas nas ilhas eram precárias, para ser sincera, era só uma desculpa para abrir mais vagas nos leitos dos hospitais. Na fuga, ele não agüentou caminhar de tanta dor e desmaiou. Por sorte, um professor de sua escola que passava pelo caminho o reconheceu e o trouxe até em casa. Mas infelizmente, após duas semanas, Hiroshi não resistiu e faleceu.”
Ao saber do fato, o pai enlouqueceu. O irmão mais velho já não morava mais com eles porque tinha sido recrutado para a guerra. Ela passava a maior parte do tempo fora de casa. O caçula era a esperança da família. “Após a morte de meu irmão, me mandaram para um templo budista, onde morei por alguns meses até me mudar para a casa de meus parentes, no interior. Casei aos 19 anos e me mudei para o Brasil em 1964 onde vivo até hoje”.


Mihoko Ikeda, 65 anos, de Hiroshima



Mihoko Ikeda tinha 5 anos quando a bomba atômica caiu a 7 km da região onde morava, em Hiroshima. Ela estava comendo um doce na casa de uma vizinha e a mãe, Atsuko Hirasaki, trabalhava na horta. “De repente escutei o maior barulho que ouviria na vida e vi um enorme cogumelo de fumaça, que misturava tons de preto, cinza, branco e rosa”, conta Mihoko. A casa dela ficava próxima à estrada e ela foi uma das primeiras a ver as vítimas que fugiam do foco da explosão. Queimados e feridos caminhavam moribundos e pediam água para aqueles que estavam sãos. “No começo, a gente dava água em chaleiras de alumínio. Fazia mal, mas a gente não sabia.
Eles queriam. Mas com a grande quantidade de pessoas que chegavam, tivemos de trocar por um balde”, conta. Próximo a sua casa, havia um templo que foi usado como abrigo para os feridos que não conseguiam mais andar. “A gente tinha pouca comida. Havia batata doce na nossa horta, mas não dava para preparar de um jeito gostoso. No fim, a gente comia muita batata e só um pouquinho de arroz” diz. Ela chegou ao Brasil em 1957 e hoje vive com a família. Em 2003, quando viajou ao Japão, conseguiu uma carteira de vítima da bomba e passou a receber os benefícios referentes.


Yasuyuki Hirasaki, 59 anos, de Hiroshima

Hirasaki é irmão de Mihoko e estava na barriga da mãe quando a bomba explodiu. Ele não tem memórias dos primeiros anos que sucederam a tragédia, mas como a família viveu esses momentos, a bomba fez parte de sua infância.
Na hora da explosão, a mãe cuidava de uma horta e os irmãos estudavam no colégio. “Um deles tinha 10 anos e estava sentado do lado oposto ao das janelas na sala de aula. Foi quando a explosão aconteceu e destroçou as vidraças. Meu irmão recebeu os estilhaços e ficou com uma cicatriz enorme acima do olho esquerdo”, relata Hirasaki.
Quando o aniversário do ataque se aproximava, a mãe de Hirasaki e Mihoko sempre se lembrava da tragédia e só conseguia descrever como “um triste cenário”. “Ela dizia que quando foi para Hiroshima, ela viu de mutilados a queimados. Na beira dos rios, vários corpos”. Em 2004, Hirasaki foi ao Japão visitou o museu de Hiroshima e obteve o direito de receber auxílio do governo japonês. A lei exige que as vítimas estejam no Japão para exames médicos no momento de entrar com o requerimento de ajuda. Essa lei, porém, é muito criticada porque os idosos não têm condições de ir até o arquipélago. “Minha mãe, falecida aos 82 anos, sempre defendia a ajuda a essas pessoas. Ela conseguiu o benefício na época em que podia andar, mas sempre pensou nas pessoas que não podiam”.




Takashi Morita, 81 anos, de Hiroshima



Após 60 anos da explosão da bomba, há uma incessante luta contra as seqüelas desta trágica história. Japoneses que sofreram perdas e passaram pelas terríveis experiências do “gembaku” (explosão da bomba atômica) juntam forças, espalhados pelo mundo todo, a fim de levantar uma única bandeira: a bandeira da paz. No Brasil, quem desempenha essa função é a Associação das Vítimas da Bomba Atômica, fundada há mais de 20 anos por Takashi Morita. Aos 81 anos, Morita preside a entidade e é responsável por estabelecer um diálogo entre as vítimas e o governo japonês. Ele lembra que muitos dos 140 associados hoje eram seus vizinhos na sua cidade natal, Hiroshima.
“Quando a bomba explodiu, eu tinha 21 anos e era um soldado da polícia de Hiroshima. Estava a 1.300 metros do epicentro da explosão. Se meu uniforme fosse feito de um tecido menos resistente, teria morrido queimado. As lembranças que tenho daquele dia são horríveis. Pessoas com os cabelos queimados e as peles penduradas pelos dedos, agonizando de dor, pulavam no rio para tentar aliviar as queimaduras. Só que acabavam morrendo afogadas. Depois de certo tempo, o rio estava coberto por cadáveres. Muitos corpos também foram encontrados nos tanques de água da cidade, que serviam para apagar os incêndios causados pelos bombardeios. O cheiro era insuportável. Todos gritavam. Um colega meu, que esteve nos escombros do epicentro da bomba à procura de seus pais, disse que chegou um ponto onde não havia onde pisar, senão em cadáveres.

Morita quando era policial


“Hoje dedico minha vida para propagar a paz. Tudo que aprendi com a guerra é que ela jamais pode ser repetida. As experiências que nós passamos devem acabar com a nossa geração”, afirma Morita. Para ele, o intuito da associação não é apenas lutar pelos direitos das vítimas diretas da bomba, e, sim, representar e dar voz a todas as pessoas que de alguma forma se prejudicaram com ela. “Na época, muitas crianças se tornaram órfãos, sem ter onde morar, sem ter o que comer. E nada podia se fazer, já que a maioria das famílias não estava em condições de fornecer ajuda. Queremos reivindicar os direitos de todos que tiveram suas infâncias marcadas pelo sofrimento do gembaku. Ninguém é mais vítima que ninguém.”

Morita acredita que o jeito mais eficaz de combater as atrocidades é a educação. “Até a Segunda Guerra, aprendíamos nas escolas que o Japão era o país divino. Morrer em combate pelo seu país era uma honra. Não é a toa que existiam os kamikazes. E não é a toa que ainda existem terroristas que amarram explosivos em seus corpos e se matam em nome de seu país. Tudo depende da educação que recebemos desde criança. Acredito que a paz só pode ser alcançada desta forma. A educação é a chave”.

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